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Fisioterapia aplicada ao tratamento de calosidades: parceria inusitada com o Podólogo?

Há algum tempo, é observado na prática clínica dermatológica a presença de patologias dos anexos da pele, cujas causas advém de deformidades ortopédicas. Observamos que havia em clínica dermatológica de Araraquara uma queixa frequente entre os pacientes a respeito de calosidades plantares, interdigitais e afecções ungueais. Como a causa da calosidade é invariavelmete a hiperpressão local, encaminhava-se o paciente ao ortopedista, para a correta avaliação e conduta. No entanto, aqueles retornavam ao consultório dermatológico com uma carta de encaminhamento do ortopedista, alegando que “calosidade é doença de pele”.

Decidi, após estas observações, dar a minha contribuição como fisioterapeuta para a dermatologia: trataria os casos  que relacionavam a má biomecânica dos pés às manifestações dermatológicas.

A correlação entre estas duas áreas pode ser explicada da seguinte forma:  para pesquisadores como Bricot e Bourdiol, nosso equilíbrio no espaço não é regulado  somente pelo ouvido interno, mas também pelo que denominamos de captores. São eles: olhos, sistema oclusal, e pés. Desta forma, muitos dos problemas posturais  geram alterações nestes captores, que provocarão desequilíbrios na postura. Não é raro  uma hiperqueratose na região dos calcâneos estar associada a uma queixa de dores do tipo ciatalgia lombar, assim como também observamos respiradores bucais com calosidades plantares em falanges distais.

Nossos pés, através de suas múltiplas e pequenas junções articulares, possuem uma capacidade adaptativa impressionante. São capazes de se comprimir para caber em pequenos espaços, assim como as mãos. O problema é que, diferentemente das mãos, a função maior de nossos pés reside na nossa locomoção, e no nosso sustento em posição bipodal. Portanto, necessita de uma base bastante larga para carregar durante todo o dia, todo o nosso peso.

A boa distribuição do peso corporal sobre os pés também é um fator importante na prevenção de alguns males. Faça um teste: fique em pé, e eleve os calcanhares do solo, ficando na ponta dos pés. Preste atenção no que acontece com o seu centro de gravidade (localizado mais ou menos na região umbilical). Na ponta dos pés, nosso centro de gravidade tenta deslocar-se para a frente. Para manter o equilíbrio, os músculos lombares (quadrado lombar e multifídios principalmente) entram em ação, tracionando o tronco para trás. Este é o mecanismo de compensação do salto alto. O que inicialmente parece uma postura muito bonita (assim o dizem as minhas pacientes), a longo prazo leva a um quadro de lombalgia, com possível listese vertebral local, e até mesmo  cefaléias tensionais associadas. O uso do salto alto é tão prejudicial para o corpo de uma forma geral, que muitos estudos têm sido realizados a respeito; para um próximo artigo tentarei demonstrar a biomecânica plantar envolvida neste acessório completamente dispensável – na minha opinião – do guarda roupa feminino.

Quando procuramos nos ater às patologias dermatológicas associadas à ortopedia/ biomecânica, abrimos um leque de possibilidades para tratamentos não invasivos e mais duradouros, como nos casos de onicomicose, por exemplo. Muitas queixas de recidiva dos tratamentos para onicomicose por parte dos podólogos reside no fato de que as causas da doença não foram devidamente tratadas, mesmo com o tratamento medicamentoso em pulso com fluconazol ou outros hepatotóxicos. Isto ocorre quando esquece-se que a causa pode ter sido a utilização de um calçado apertado, ou quando o paciente apresenta dedos em garra ou em martelo, que durante a marcha farão uma hiperpressão contra o solo ou calçado, descolando assim o leito da lâmina da unha e gerando um ambiente propício para a a proliferação fúngica.

Para o tratamento destes artelhos referidos, várias técnicas podem ser utilizadas, desde as cirúrgicas (tenorrafias, artrodese), até as técnicas conservadoras, como alongamentos passivos e ativos e uso de palmilhas ortopédicas. Como metodologia de trabalho para tratar estas afecções sugiro a podoposturologia, que trata os problemas relacionados aos pés de uma forma ampla, verificando desde as causas traumáticas até os desvios de marcha e má postura corporal, aliada à fisioterapia convencional para alivio da dor e melhora da mobilidade e força de forma específica.

Assim sendo, acredito que a parceria entre o fisioterapeuta, o podólogo e o dermatologista não é tão improvável, e pode resultar em menor tempo de tratamento e prevenção à longo prazo daqueles calos e micoses que há muito incomodam nossos pacientes.

 

Thania L. Cordeiro Abi Rached

Fisioterapeuta – CREFITO 3/ 61460F

Especialista em Fisioterapia do Aparelho Músculo-Esquelético pela UNAERP

Mestre em Bioengenharia pela USP – São Carlos

Doutoranda – Programa de Pós Graduação em Clínica Médica

FMRP – USP

 

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